Todas as paixões insubstituíveis deixam uma cicatriz, que um dia foi uma ferida.
A maior parte das vezes, os golpes são infligidos logo na infância.
Às vezes a ferida não fecha. Infecta e gangrena.
É quando temos de amputar um pedaço de nós.
Passámos a usar próteses, para ao menos, tentar, substituir o insubstituível.
A sobrevivência e a mendicidade passam a ser a vida inteira.
Mas não há nada pior que ter de aceitar a caridade dos outros, porque ninguém faz caridade sem pedir um recibo.
Não existem boas próteses para uma alma mutilada.
Por isso, é melhor sobreviver sem elas. Procurar a força, só na fragilidade.
Mas será sempre uma sobrevivência.
-Não, não volta a crescer. És estúpido ou quê???
Vá, enterra-te no desporto, no trabalho, no dinheiro, na religião, na droga, na política, nas compras, no carro, na vaidade, nas seitas, na família, na pornografia, na meditação, no voluntariado, na jardinagem, num grupo de ódio, na cozinha. Foge do sexo, muda de sexo, de país, de cor ou de nacionalidade. Escolhe uma filosofia de vida ou segue um palhaço qualquer na internet. Finge que és um cão ou um gato, compra langerie ou brinquedos sexuais, ou adere à libertinagem ou ao celibato militante. Quer batas, sofoques, te venhas dentro ou para cima, amarres, lambas ou sodomizes o teu parceiro, não vai crescer uma paixão insubstituível. Não vai crescer.
Vais acordar todos os dias e ver um coto.
E há sempre um cabrão, com cara de amigo, que quer ser o teu dono.
Ser humano é isso.

Sem comentários:
Enviar um comentário