
Este poema, é inspirado no assalto à dependencia do BES, que em Agosto passado fez as delícias dos jornalistas e do histerismo nacional, em relação ao crime e aos emigrantes, quando dois assaltantes tentaram roub...perdão, tentaram recuperar algum dinheiro aos ladrões do Espírito Santo.
A Oração Funebre
São duas da matina,
O assalto deu pró torto,
Tenho uma bala na barriga,
Outra no pulmão,
O país inteiro vê-me morrer.
A rua encheu-se de curiosos,
Tenho a estupidez humana
Como oração funebre.
Uma desgraça nunca vem só.
O padeiro da esquina,
Largou o seu forno,
Para me vir cuspir em cima :
- Eu não sou racista, mas com estes brazucas, é atirar primeiro e discutir depois!
- E eu senhor - diz um veterano do ultramar com propriedade - Eu estive em Angola, e estes gajos são piores que os turras pá ! é matá-los a todos!!
- É bem feito ladrão! Gandúlos!- grita o povo irado.
Chegaram uns jovens blusões de couro, de cabelo comprido, que dizem que a minha morte não é legítima e discutem com um velho.
- Se fosse um familiar seu refém? Gostava?- pergunta o velho.
- E se fosse o seu filho ali a morrer? Gostava? - responde um jovem blusão de couro.
- É muito bem feito ! - grita o povo. - Não temos pêna de ti, ó ladrão!
Agora chegaram os cabeças rapadas, riem-se de mim com escárnio, e afirmam que a minha morte é suave demais, que eu merecia pior.Espero que no inferno os encontre a todos eles.
São duas e trinta da matina,
Sinto muito frio,
O meu sangue corre como um rio,
tenho a estupidez humana,
Como oração funebre
A única coisa que me consola,
É aquela miúda, no meio da turba enfurecida,
Que chora ao ver um homem morrer à sua frente,
Seja bófia ou ladrão,
Ela não faz distinção,
Aquelas lágrimas, aquecem-me a alma.
Eu não quero desculpas.
Tive o que merecia.
Eu era apenas um ladrão,
Que sonhava com milhões,
Tenho milhões de estrelas,
No fundo do meu caixão
Agora,
Tenho milhões de estrelas
No fundo do meu caixão.