Dias que não passam de sombras das noites e silêncios que ressoam na alma como um grito; quando as pálpebras mareadas de água salgada, já não têm a força das tempestades; quando, levado pelas ondas das marés, já não vejo o abrigo das margens.
Amores que nasceram em estações erradas; quando a primavera demorou a abrir seus brotos com luas sempre cheias que já não me sorriem. Jogar xadrez quando a rainha se perdeu.
Como tudo é escuro; como te dizer que tudo é escuro? Como tenho medo e como tenho frio. Como te dizer? Como te dizer, diz-me, como te dizer?
As minhas certezas que não passam de sombras da dúvida. O bem que faz mal quando o mal nos enfeitiça; quando, no coração da íris, chega o tempo das monções que vem afogar o trigo pouco antes da colheita.
Nos descaminhos do tempo, sei que te perdi e tu disses-te cem vezes que não voltarias, para eu te deixar ir.
Então posso partir como um lobo solitário, que, ferido, vai morrer aninhado a uma faia.
Eu queria que esse ser fosse tu. Queria, contigo, ser outro além de mim e no fundo do teu ventre, fazer a terra mais bela. Esquecer quem sou e fechar as pálpebras num último suspiro.
Como tudo é escuro; como te dizer que tudo é escuro? Como tenho medo e como tenho frio. Como te dizer? Como te dizer, diz-me, como te dizer?
Quando se está tão só que até a solidão parece uma amiga de quem não se pode abdicar. Aquela que... esteve sempre aqui, desde o primeiro suspiro.
Quando já não me lembro que um dia soube rir; quando a dor escolheu minha alma como seu império. Quando todos os angustiados e vencidos do mundo escolheram o meu coração para chorar.
Como tudo é escuro; como te dizer que tudo é escuro? Como tenho medo e como tenho frio. Como te dizer? Como te dizer, diz-me, como te dizer?