Naufraguei bem mais morto do que vivo.
E do meu barco retirei todos os cadáveres da minha vida. Muitos estão vivos. Enterrei-os vivos assim mesmo e nem um queixume ouvi - chorei muito por isso - não por eles, não mais por eles.
Fiz um cemitério; é o meu jardim.
Nem rezas, nem choro nem terra sagrada. Uma vala comum. Um buraco onde mijei depois de cobrir de terra perfumada.
O meu barco repousa na praia, todo ele farrapos.
Só preciso que ele volte a flutuar.
A viagem já não será grande e não tenho grandes víveres porque a ilha é seca e a pouca água que há já sabe a carne potrefacta.
Vou voltar ao mar, que afinal é a minha casa. Um deserto de areia líquida e salgada.
Depois, bem mais morto do que vivo, acendo uma fogueira que ninguém verá.
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