sábado, 22 de agosto de 2026

 


Naufraguei bem mais morto do que vivo.

E do meu barco retirei todos os cadáveres da minha vida. Muitos estão vivos. Enterrei-os vivos assim mesmo e nem um queixume ouvi - chorei muito por isso - não por eles, não mais por eles.

Fiz um cemitério; é o meu jardim.

Nem rezas, nem choro nem terra sagrada. Uma vala comum. Um buraco onde mijei depois de cobrir de terra perfumada.

O meu barco repousa na praia, todo ele farrapos.

Só preciso que ele volte a flutuar. 

A viagem já não será grande e não tenho grandes víveres porque a ilha é seca e a pouca água que há já sabe a carne potrefacta.

Vou voltar ao mar, que afinal é a minha casa. Um deserto de areia líquida e salgada.

Depois, bem mais morto do que vivo, acendo uma fogueira que ninguém verá.

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